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Para um Concelho da Diversidade

Intervenção de Ana Carolina Gomes na abertura do II Fórum LGBTQI+, que decorreu em Coimbra de 1 a 2 de março.

Antes de mais, cabe-me nesta intervenção fazer duas coisas:

Em primeiro lugar agradecer.
Agradecer a mobilização e participação de todas as pessoas que estão a tornar este momento possível: desde a organização, à casa que nos acolhe, à Pharmácia que acolhe a festa, aos nomes que tão bem enriquecem a discussão dos paineis. Vou simbolicamente mencionar dois nomes, porque me parecem na essência os mais necessários neste agradecimento: um sincero obrigada à disponibilidade e cuidado da D. Margarida e do Sr. Amadeu, assistentes operacionais desta escola.

Em segundo lugar, quero dar-vos as boas vindas a Coimbra e desejar que estes dias vos permitam concluir que Coimbra tem sempre encanto, na chegada ou na despedida, mas sobretudo na experiência, na luta, na discussão política, na construção coletiva.

Nos últimos dias, levantaram-se algumas vozes contra a realização deste Fórum. O Chega emitiu um comunicado em que nos acusa de “instrumentalização do espaço escolar”, de impor a “cultura woke” e de “doutrinação nas escolas”, defendendo que “a liberdade e diversidade sexual são questões individuais”.

Intencionalmente fingem não perceber que este Fórum não é uma iniciativa para a comunidade escolar. Esta é a estratégia da extrema direita: considerar direitos sociais e humanos como doutrinações perversas, considerar  conquistas coletivas como questões de expressão individual.

A mesma estratégia que uniu agora a direita na Assembleia da República para aprovar a exclusão d“O Direito a Ser nas Escolas”, guia da Direção-Geral da Educação que promovia a inclusão de crianças e jovens trans e não bináries no contexto escolar.

Uma estratégia global, visível na campanha e ação de Trump, mas também nos seus bons alunos de Portugal e também já em Coimbra.

A quem abre as portas ao retrocesso, a quem ameaça direitos conquistados, a quem agride a emancipação de toda a sociedade: aqui estamos a responder. Não vergamos e mantemos a convicção das lutas que historicamente têm sido sinónimo de resistência: como o movimento feminista e como, e por isso aqui estamos, o movimento LGBTQI+. Reconhecidos como grandes protagonistas da reação internacional ao crescimento do conservadorismo e da extrema-direita.

Por isso é este o lema do Fórum: orgulho contra o conservadorismo. Orgulho de não desistir da construção hoje por um amanhã melhor e efetivamente para todas as pessoas. Contra o conservadorismo, contra o achar que ontem é que estávamos bem. Aqui, neste movimento de força e resistência, não há saudosismo a preto e branco do ontem, apenas a esperança no arco-íris do amanhã e a vontade de começar, já hoje, a pegar nas trinchas para o pintar.

O orgulho incomoda: por ser convicto e diverso, por ser pela libertação de toda a gente e de todas as formas de ser, por ser colorido, por ser alegria.

Aqui, a Câmara Municipal de Coimbra todos os anos questiona se a Marcha LGBTQI+, a terceira mais antiga do país, abrindo a agenda das marchas a 17 de maio, é mesmo uma manifestação ou um desfile. Dou já a resposta para a de 2025: a marcha é uma manifestação, sim; é uma expressão política, sim; e é, também, uma festa… Mas quem disse que a luta não pode ser uma festa?

Aqui, a bandeira LGBTQI+ até já foi hasteada nos paços do concelho… mas isso não é o suficiente.

Aqui, existe um Plano Municipal para a Igualdade e a Não Discriminação, mas isso também não é o suficiente.

Não – quando “LGBTQIA+” surge quatro vezes num documento de trinta e quatro páginas, uma delas no glossário. 

Não – quando para a prevenção e combate a todas as formas de violência contra as pessoas LGBTQI+ na vida pública e privada estão planificadas seis ações de sensibilização, em quatro anos, distribuídas entre o tecido empresarial local, ONG’s e profissionais de saúde.

Não – quando a interseccionalidade é identificada como um dos pressupostos do plano, mas a palavra “racismo” não é mencionada uma única vez.

Ou quando sobre deficiência também apenas é identificado o número de equipamentos sociais em 2022: dezanove. Um número que é nada, quando os espaços e equipamentos municipais acessíveis são uma raridade, quando não se instalam rampas em edifícios requalificados com a desculpa de que são património, ou quando a própria casa da cultura não tem um elevador público e devidamente dimensionado. E este seria apenas o início de toda uma outra conversa sobre Coimbra…

Aqui – onde acreditamos ser possível um concelho da diversidade, não bastam medidas proclamatórias nem uma bandeira hasteada uma vez por ano.

Aqui – para um concelho da diversidade, precisamos de planos reais de identificação e diagnóstico das múltiplas discriminações; precisamos de um Plano Municipal LGBTQI+ que vá além de uma apresentação power point para cumprir agenda e que represente um esforço sério de coerência com a bandeira hasteada no dia 17 de maio; são necessárias políticas públicas que concretizem os direitos humanos.

Agora – quando o cerco da extrema direita, da opressão e da discriminação vai saindo da sombra da vergonha e se vai afirmando. Aqui – onde mais do que a estética da igualdade é necessária a política dos direitos humanos. Calçamos os sapatos e vamos para a rua. Ousamos enfrentar o medo e juntas ter orgulho.

No fim deste fórum, teremos mais força. Nestes dois dias: lutem com alegria!